17 dez

desfractalizados estamos

sobre We Think We Like That, de Cristian Duarte e Paz Rojo

por Bruno Freire

13

 

A cidade e seus contornos se expandem. Ao final de 2011, seremos 7 bilhões, segundo as Nações Unidas[i]. Nossa percepção desta realidade insiste em ser parcial. A realidade insiste. Nossas metrópoles estão hiper-imensas: o que significa viver com 7 bilhões? O que é desatar este ‘Nós’? Cada indivíduo é fragmento responsável por movimentar esta usina e ao mesmo tempo por seguir um fluxo planetário que nos acompanha dia-a-dia. Uma coreografia diária na qual nós somos propositores e espectadores. Acorda, levanta, dirige para o trabalho, trabalha, come, consome, assiste, compra, dirige para casa, dorme…  O artista, ‘a exceção da regra’, é mais um indivíduo que está submerso neste ambiente repleto de normas de como, porquê e para quem se deve fazer o que fazemos. Não há refúgio. “Baixa e alta cultura estão hiperconectados”[ii], sem distinção. Toda regra tem uma exceção, mas a exceção também dá sentido e sustenta as regras soberanas do jogo. Separar a arte do jogo é acreditar que seu cheiro não está incrustado no sistema que valida a própria arte. “Todos falam a regra”[iii]. Mas você está fora, por quê? E todos Nós? Qual a economia que vai sustentar sua arte neste hipercapitalismo?

Enquanto o universo se expande, aguardamos dentro do teatro o espetáculo We Think We Like That dos coreógrafos Cristian Duarte (Brasil) e Paz Rojo (Espanha)[iv], um dos produtos oriundos do campo de trabalho a piece…together? [v](uma peça… juntos?). Está para começar o 3º Festival Contemporâneo de Dança, na Galeria Olido.

‘Um de nós’ entra no palco, liga uma música para todos nós e sai. Retorna, alguns minutos depois, com um colete futurista low-tech. Desliga o aparelho e re-liga a música pelo colete. Vestido como um homem-bomba-sonora, onde as caixas de som estão voltadas para seu peito/costas, a música atravessa seu corpo e vaza para todos nós. Do Eu ao Nós. Aquilo que aparentemente afeta o indivíduo, de alguma forma, afeta também o(s) outro(s). Estamos afetados.

Então, este ‘um de nós’ começa a encaixotar refletores. Pouco depois, outro um de nós colabora com aquele que encaixotava refletores, executando a mesma tarefa. Agora, não é ele nem o outro, mas ‘nós’ que empacotamos as coisas para uma suposta mudança. Aos poucos, todos nós somos solicitados para o empacotamento do teatro, paredes, cadeiras, mesas. Não necessariamente nesta ordem. Ainda, não sabemos como, porquê e pra quê trabalhamos, nem temos certeza se o objetivo final é, realmente, cobrir todo o espaço. Mas seguimos o fluxo, sem sabermos os porquês, apenas realizamos a coreografia cuja regra intuímos.

Por quê fazemos o que fazemos?

Ao que parece, neste experimento, nenhum de nós é claramente dançarino e nenhum de nós é claramente espectador. Os corpos se diferenciam no engajamento com que realizam suas atividades, através de um problema sugerido. Nós somos responsáveis. Este experimento é construído por mim e por todos nós e ‘nós pensamos que nós gostamos disso’. Disso daí. Desta coisa qualquer[vi]. Desta união de pessoas em torno de algo. Deste se vincular em uma atividade em um encontro de duas horas. Uma união com prazo de validade pré-determinado. Tudo acabará na hora em que o espetáculo terminar ou quando nós decidirmos encerrar ou quando nos retirarem da sala ou…

Aos poucos este fazer des/montar do teatro, que não sabemos quando termina, vai se tornando um nomear dos objetos que serão retirados da sala. Mas os objetos serão retirados do teatro e levados para onde? Estão mudando o teatro de lugar? Pra quê? Estamos em greve? Não sabemos. No entanto, começamos a identificar com marcadores e canetas as coisas, os objetos, as pessoas etc. Passo a passo, nossos vocabulários vão se misturando uns aos outros. As palavras se bifurcam, digladiam entre si, engolem-se, queimam-se, enfim… Gerando uma espécie de ‘embate de palavras’: um colocar nomes nas coisas, ‘que vai desenhando topologias’ pelas paredes, caixas e papelões. Seus significados se interconectam e independem. Palavras são despejadas pelo ambiente e ‘seguem um percurso que se misturam de acaso e causalidade’[vii]. Os vocabulários ganham importância num momento em que parecia que já tínhamos entendido tudo que iria acontecer durante as duas horas subsequentes. Muitos de nós já tínhamos nos desvinculados deste ambiente em comum há tempos. Muitos outros de nós permanecemos, prontos para iniciarmos a nova fase que se anunciava: o THE TABLE-WORD GAME[viii] – um desdobramento cujo histórico é bastante esclarecedor de como o campo do apt? organiza seu material em processo criativo (ver 8). Este jogo foi se alastrando pelo teatro até o momento em que um de nós anunciou: Fim. Nós voltamos no dia seguinte para saber se tudo aquilo aconteceria de novo da mesma forma; e aconteceu, só que um pouco diferente. Fim. Nós voltamos ainda no dia seguinte ansiosos, para participar de novo de um trabalho interativo; e não aconteceu, ao menos não naquele espaço e…

 

[i] Dados retirados da matéria de capa da National Geographic de janeiro de 2010, cujo título é Seven Billion: how your world will change? (Sete Milhões: Como seu mundo vai mudar?)

[ii] Em ‘A Cultura-Mundo: Resposta A Uma Sociedade Desorientada’ LIPOVETSKY & SERROY (2010) criam um diagnóstico preciso acerca de como está a atual organização da sociedade. Apresentam a hipótese de que na virada do século, vivemos a era da hipermodern­idade, onde observamos a mercantilização total da cultura. E para desespero dos vanguardistas, a própria arte inseriu-se no consumismo. O panorama elaborado por estes autores nos ajuda a tirar uma fotografia da situação, sem revolta nem desespero, sem mocinhos ou bandidos. O vilão que promovia o consumo massivo talvez não recaia mais somente sobre os ombros pesados da televisão e da indústria cultural, mesmo porquê, a atual cultura é de-todos e para-todos.

[iii] De certa forma medo é a filha de deus, redimida na noite de sexta-feira. Ela não é bela, zombada, amaldiçoada e renegada por todos. Mas não entenda mal, ela cuida de toda agonia mortal, ela intercede pela humanidade, pois há uma regra e há uma exceção. Cultura é a regra e arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, televisão, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoyevski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção. Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce. Quando chegar a hora de fechar o livro. Eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morreram tão bem. GODARD, Jean-Luc. Je Vous Salue Sarajevo. 1993.

[iv] Para conhecer o histórico desta dupla de coreógrafos – Cristian Duarte (BR) e Paz Rojo (ES) – você poderá acessar o siteapiecetogether.blogspot.com.

[v] O apt? é um campo de trabalho que parece perseguir não uma única forma, mas um entrelaçamento de obras. Pensando nisso, os coreógrafos se apoiam no entendimento de ‘economia fractal’9. Uma economia avessa a monocultura. Esta característica contamina o modo como os artistas trabalham e produzem. Seus interesses estão tanto no movimento da dança, quanto em outros movimentos que podem ser deslocados de outras áreas artísticas. O fractal também significa que cada obra-experimento produzido por este campo existe à parte e independente. No entanto, o resultado que percebemos é que não existe nenhuma obra tão à parte assim, porque cada experimento depende um do outro para existir. Justamente, por conta dos intervalos entre uma obra e outra, onde localizamos a potência que impulsionam o aparecimento de desdobramentos. Cada fresta desta economia fractal, resulta em um objeto de estudo diferente. Assim, toda obra proposta pelo apt? é autônoma, ao mesmo tempo que mantém relação com as anteriores, através de uma similaridade, muitas vezes nada reconhecível. Como no caso dos fractais que por não estabelecerem estruturas como na geometria euclidiana, acabam criando conexões e formatos inimagináveis.

[vi] As experiências de Duarte e Rojo lidam ao menos com um padrão facilmente reconhecível: o diálogo com o(s) outro(s). Estes outros, em alguns casos, são tratados como atravessadores (crossers), em outros como participantes. Em We Think We Like That, nós os atravessadores somos, na verdade, assistentes, juntos com os propositores do apt?. Nós, assistentes, assistimos e damos assistência. ‘Um trabalho de todos nós e de ninguém ao mesmo tempo’, fala dos autores: Duarte, Rojo e Nós. Aparentemente, qualquer indivíduo pode ser um bom assistente. A dificuldade deste trabalho está justamente em descobrir como se tornar um bom assistente. Como ser apenas um sujeito qualquer que não é identificado pela sua inclusão em determinada classe. Que a sua singularidade está em apenas ser um sujeito comum, um ‘qual que quer’10 apenas dar assistência ao outro.

[vii] KATZ (2010) em seu texto ‘O papel do corpo na transformação da política em biopolítica’, apresenta um resumo poético do curso evolutivo das palavras. No livro da GREINER, Christine. O Corpo Em Crise, SP. Ed. Annablume, 2010, p.  124.

[viii] The Table Word Game ilustra, brevemente, o mecanismo que faz girar a ‘economia fractal’9, conceito este que Cristian Duarte e Paz Rojo utilizam no campo do ‘apt?’. The Table Word Game surgiu através de uma prática diagramática, em contextos outros, anteriores ao próprio ‘apt?’, o Vacabulaboratories – um laboratório acerca da performatividade da palavra, no qual Paz Rojo em parceria com Manuela Zechner e Anja Kanngieser, em 2008, criaram uma série de residências sobre estudos da linguagem. Esta pesquisa, consequentemente, contaminou o campo do ‘apt?’, que o praticou em diferentes intensidades. Foi numa troca constante de experiências que se criou a primeira ferramenta deste campo: The Table-Word Game. Eis um exemplo de como se dá a tal ‘economia fractal’. Desdobramentos são incontroláveis.

10 No livro ‘A comunidade que vem’ Agamben (1993) inicia debatendo o ‘qualquer’, como um sujeito que está por vir. Daí talvez a dificuldade da proposta de corpo do We Think We Like That, como trabalhar com a projeção deste indivíduo assistente/qualquer que existe apenas enquanto potência?

 

Bruno Freire é mestrando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Foi assistente do experimento We Think We Like That, trabalhando como artista agregado da plataforma Desaba,

pesquisando como propor coreografias através de instruções escritas.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: